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Artigo

Gladys Aylward fiel na humildade

Noel Piper 30 de Outubro de 2018 - Evangelização

O trecho abaixo foi retirado do livro Mulheres Fiéis e seu Deus Maravilhoso, de Noel Piper, da Editora Fiel.

Na China, o século dezenove terminou com uma sangrenta agressão contra os estrangeiros e os chineses que se associavam a eles. Milhares de cristãos chineses e mais de 230 estrangeiros, muitos deles missionários, foram assassinados por membros de uma sociedade revolucionária chamada Fists of Righteous Harmony, apelidada de “Boxers”. Seu grito de guerra era: “Exterminem os estrangeiros, matem os demônios!” O mês de setembro de 1901 marcou o fim da Rebelião Boxer.

Cinco meses mais tarde, em 24 de fevereiro de 1902, no outro lado do globo terrestre, um bebê nascia em Edmonton, uma região ao norte de Londres. O senhor e a senhora Thomas Aylward chamaram sua primeira filha Gladys May. Nem os Aylwards, nem muitos de seus vizinhos de classe operária jamais se mudariam de onde tinham nascido. Eles certamente nunca imaginaram que algum dia Gladys moraria na Província Shanxi da China, que havia sido um lugar propício para a brutalidade dos Boxers.

Thomas Aylward era carteiro e o encarregado do pastor na igreja St. Aldhelm’s Church. A senhora Aylward fazia o trabalho doméstico, e, algumas vezes, falava no hall da missão, contra os males da bebida. Os pais de Gladys levavam-na regularmente aos cultos e à escola bíblica dominical da igreja.

Gladys não foi uma boa aluna, nem tampouco gostava de estudar; deixou os estudos aos quatorze anos, ficando desqualificada para fazer qualquer trabalho. Seus pais ajudaram-na a encontrar uma vaga num Penny Bazaar – um tipo de “loja de R$1,99” de nossos dias. Também trabalhou num pequeno mercado. Em seguida, trabalhou como babá e depois como arrumadeira em casas de classe alta. Estes trabalhos não pagavam bem, mas Gladys gozava a vida na cidade. À noite, ela frequentava aulas de drama, porque realmente desejava tornar-se atriz. E nesse tempo tornou-se impaciente com as coisas da religião.

Por que não você?

Mas Deus a preparava para algo mais. Em sua autobiografia ela escreveu:

Uma noite, por alguma razão que nunca poderei explicar, fui a uma reunião religiosa. Lá, pela primeira vez, compreendi que Deus tinha algo determinado para minha vida, e aceitei a Jesus Cristo como meu Salvador. Juntei-me ao Young Life Campaign, e em uma de suas revistas li um artigo sobre a China que causou uma maravilhosa impressão em mim. Compreender que milhões de chineses nunca tinham ouvido falar de Jesus Cristo era um pensamento surpreendente para mim, e senti que tinha de fazer algo a respeito disso.

O ponto principal do artigo falava sobre a primeira vez que um piloto havia voado de Shanghai até Lanchow, bem no interior. Gladys provavelmente nunca ouvira falar de Lanchow e não tinha ideia de que algum dia visitaria aquele lugar e que moraria próximo dele. Ainda sem perceber que aquele artigo era designado a ela, tentou fazer com que seus amigos cristãos se interessassem em levar o evangelho à China. Mas nenhum deles se interessou. Ela aproximou-se de seu irmão, pensando que ele certamente iria, se ela prometesse auxiliá-lo.

 “Eu não!”, ele disse prontamente. “Isto é tarefa para uma solteirona. Por que você mesma não vai?”

“Tarefa para uma solteirona?” pensei, com raiva. Mas aquele golpe foi certeiro. Por que estou tentando empurrar os outros para a China? Por que eu mesma não vou?

Ela não era enfermeira ou professora, por isso não tinha certeza onde haveria um lugar para ela no campo missionário. Mas ela sabia que podia falar. Talvez Deus pudesse usar isso. Então, fez sua inscrição para o China Inland Mission. Em 12 dezembro de 1929, o Comitê de Candidatos daquela missão tomou nota de sua conversão ao cristianismo e de sua “força visível de caráter”. Embora não tivesse menção direta sobre seu inadequado grau de escolaridade e de suas pobres habilidades educacionais, estas limitações implicam na recomendação condicional do “teste de alguém para verificar se é capaz de estabelecer-se para estudo regular”.

Na Casa de Treinamento de Mulheres, Gladys vivenciou uma nova experiência, permanecendo no andar de cima, com as outras mulheres que eram treinadas, e não no andar de baixo, com as servas da casa. O termo de três meses foi preenchido com trabalho de classe, estudo bíblico, devocionais particulares, ensino na escola dominical em bairros pouco civilizados, e ouvir relatórios sobre a China e as dificuldades de chegar e viver lá. Gladys se saiu bem nas questões práticas, mas parecia não aprender e entender as conferências e os livros.

No fim daquele período, o comitê julgou que ela não estava qualificada e que sua base educacional era muito limitada. Também se preocuparam que a língua chinesa seria muito difícil para ela, especialmente na idade em que estava – quase trinta anos. Gladys estava atônita. Tinha muita certeza de que Deus a queria na China.

Treinamento de missões personalizado

E Deus queria. Mas Ele planejava enviá-la de um modo diferente, um modo que se adequasse a ela. Antes de enviá-la, Deus a colocou em sua escola de aprendizado particular de candidatos missionários que havia preparado especificamente para ela. Algumas das matérias eram similares às que ela havia recebido na escola de candidatas, mas a sala de aula era a própria vida.

Talvez suas primeiras lições tenham sido na área de oração, mesmo enquanto ainda estava lutando no Treinamento de Candidatas da Missão para o Interior da China (MIC). No fim de seu tempo ali, ela disse ao comitê: “Desculpem-me por não ter sido capaz de aprender muito no colégio, mas aprendi verdadeiramente a orar, a orar como nunca orei antes, e isto é algo pelo que sempre serei grata”.

Quando o comitê de missões pediu que Gladys não retornasse para treinamento adicional, ela questionou a si mesma se Deus havia fechado a porta para a China. Especialmente quando um dos executivos da missão perguntou a ela sobre seus planos, e ofereceu-lhe um trabalho em Bristol para auxiliar o Doutor Fisher e sua esposa, que recentemente haviam se aposentado da China. Ela aceitou porque a porta que ela havia planejado para o futuro estava fechada naquele momento. Contudo, trabalhar para os Fishers parecia um passo para trás. Isso a colocou de volta ao serviço doméstico, que não era o que sonhava. Mas neste cenário, Deus a colocava em meio a mentores espirituais mais velhos, mais sábios. Mais tarde, ela disse:

Aprendi muitas lições com eles; sua fé irrestrita em Deus foi uma revelação para mim. Nunca havia conhecido ninguém que confiasse em Deus tão completamente, tão cegamente e com tanta obediência. Eles conheciam a Deus como amigo, não como alguém distante, e viviam com Ele a cada dia.

O Doutor Fisher e sua esposa me contaram histórias de suas próprias vidas além-mar.

“Deus nunca lhe deixa. Ele lhe envia, guia e providencia para você. Talvez Ele não responda suas orações como você gostaria que fossem respondidas, mas Ele as responde.”

A verdadeira indagação de Gladys era a seguinte: O não que recebeu da Missão para o Interior da China significava também um não da parte de Deus? Ou isto era simplesmente o meio de Deus deixá-la livre para um outro plano?

“Como posso saber se Ele quer que eu vá para a China ou que permaneça em Bristol?” Eu me questionava.

“Ele lhe mostrará a seu próprio tempo. Continue vigiando e orando.”

Aquele não parecia um conselho muito significativo, mas era o que ela precisava – uma exortação para que vigiasse e orasse.

Se a sua habilidade para falar seria seu principal recurso num desafiante campo missionário, então, ela precisaria de experiência ministerial. Mesmo antes de ter feito sua inscrição para a MIC, Deus lhe dera oportunidades para evangelizar. As atas do Comitê de Candidatas da MIC observam que “ela se tornou uma testemunha consistente em seu local de trabalho e, que trabalhou ao ar livre e em reuniões de grupos jovens”.

Mais tarde, quando deixou os Fishers, mudou-se para o País de Gales para trabalhar como “irmã de uma missão de resgate” em Swansea, uma cidade portuária. Toda noite ela descia aos estaleiros, tentando persuadir mulheres a irem para casa ou a irem junto com ela para a sede da missão. Nos bares toscos à beira-mar, ela enfrentaria marinheiros bêbados, se fosse necessário, para salvar as moças que estavam com eles. E, então, levava-as para a estalagem da missão.

Uma empregada doméstica que tinha um chamado

Esse tipo de ministério desafiador ajudou-a a compreender que precisava conhecer mais a fundo a Bíblia, se Deus a levasse algum dia para a China. Começou então a ler desde a primeira página. Seu estilo de vida e de conversação era sincero, e era desse modo que ela entendia o que lia. Quando aprendeu sobre o modo como Deus guiou Abraão a um lugar estranho e sobre como Moisés desafiou um povo difícil a seguir a Deus, ela pensou: “Se eu for para a China terei de me dispor a mudar e deixar todo e qualquer mínimo conforto ou segurança que eu tenha”. E ela não esperou. Saiu de Swansea e mudou-se para Londres, a fim de trabalhar e juntar dinheiro, para pagar os gastos que teria para ir à China.

Ainda perplexa com o chamado de Deus em sua vida, sua leitura bíblica trouxe-lhe a história de Neemias. Esta história era de especial interesse para Gladys, uma criada, porque Neemias estava a serviço também, como um tipo de mordomo. Ele teve de obedecer ao seu empregador, do mesmo modo que Gladys. Mas aquilo não impediu Neemias de ir aonde Deus o enviara.

Quase como que uma voz soando no lugar em que estava, ela ouviu: “Gladys Aylward, o Deus de Neemias é o seu Deus?”

“Sim, é claro.”

“Então faça o que Neemias fez, e vá.” “Mas eu não sou Neemias.”

“Não, mas eu sou o Deus dele.”

“Isso ficou estabelecido”, ela disse mais tarde. “Cri que aquelas eram ordens para marchar.”

Mais tarde, em outro momento crucial de sua vida, bem no interior da China, Deus usaria palavras semelhantes para assegurar Gladys de seu eterno poder. Na ocasião seguinte, as palavras do Senhor seriam ditas a ela através de uma criança, quando Gladys havia perdido de vista a presença de Deus.

Era animador receber ordens para marchar. Mas viajar para a China era caro. Gladys continuava pensando em um modo de chegar lá, mas ficava desanimada. Ela não teria o endosso ou a recomendação da diretoria de uma missão; portanto, se ela fosse, teria de ir por sua própria iniciativa e provavelmente com seu próprio dinheiro. Visto que Gladys Aylward não tinha certeza se iria para a China ou onde ficaria naquele país, o que faria ali, e muito menos como pagaria por isso, ela estava muito consciente de que sua provisão viria exclusivamente de Deus. Se Deus a estava chamando, Ele proveria suas necessidades.

É irônico entender que sua nova posição de criada era na casa do senhor Francis Younghusband, um aventureiro legendário que havia explorado terras remotas da China e do Tibet. É duvidoso que ele tenha percebido haver uma nova serviçal em sua casa. E nem ele nem Gladys teriam imaginado que uma criada passaria por aventuras na China que rivalizariam às do senhor Francis.

Confirmação

Quando ela chegou à residência Younghusband, subiu para o seu quarto para acomodar-se. Ao desfazer as malas, espalhou sobre a cama todos os seus recursos. Eles constavam de uma Bíblia, uma cópia de Luz Diária, e três moedas que juntas somavam a quantia de dois pence e meio pêni, o que era todo o dinheiro que ela tinha e que era tão pouco quanto parecia. “Oh Deus”, ela orou, “aqui está tudo que tenho. Se Tu me quiseres, vou para China com isto”. Como uma resposta à sua oração, sua patroa a chamou no andar de baixo. Ela queria pagar o valor que Gladys havia gasto para chegar até lá. Gladys retornou ao seu quarto segurando firmemente três moedas equivalentes a 36 pence. Em um momento, sem que houvesse qualquer esforço da parte dela, Deus havia aumentado suas economias mais do que mil por cento.

Para Gladys isto pareceu uma promessa de Deus de que Ele providenciaria todos os seus gastos para ir à China. Assim, na primeira oportunidade, ela foi até a agência de viagens para começar a efetuar pagamentos de sua passagem de navio para a China. O agente de viagem não estava acreditando. Uma mulher como Gladys nunca teria condições de pagar 90 libras pela passagem. Ele pensou que ela era louca. De alguma forma, ele deixou escapar que a jornada através da Europa e da Sibéria até a China, por trem, custava mais da metade daquele valor. Bem, é claro, Gladys agora sabia que viajaria de trem. Ela recusou-se a ouvir os argumentos dele de que era impossível por causa da guerra entre a Rússia e a China. Sua “surdez” persistente venceu, e ele concordou com relutância em aceitar depósitos regulares, até que o valor total fosse pago.

O primeiro modo como Deus providenciou sua passagem foi por meio do próprio trabalho árduo de Gladys. Depois de seus longos dias como criada, ela fazia um trabalho extra durante a noite, ajudando a servir em festas ou no que mais ela encontrasse para fazer. Ela economizava tudo que ganhava, e usava as mesmas roupas velhas muitas e muitas vezes.

Deus providenciou recursos por meios inesperados, através da generosidade de outros. Um dia, a patroa de Gladys planejava ir a uma festa ao ar livre com uma amiga, mas esta amiga ficou doente. Então, ela convidou Gladys para acompanhá-la. Gladys ficou extremamente alegre, mas não possuía roupas apropriadas para um evento como aquele. Sua patroa emprestou-lhe algumas de suas próprias roupas. Depois, quando Gladys foi devolvê-las, aquela senhora pediu que ficasse com elas. Aquelas roupas eram de uma qualidade muito superior a qualquer coisa que Gladys jamais compraria para si mesma, e elas lhe serviram bem por bastante tempo.

Outra inesperada providência foi que Gladys depositou todo o valor de sua passagem, de pouquinho a pouquinho, em menos de um ano, embora ela tenha esperado que isso fosse levar três anos completos. Isto significava que ela chegaria à China enquanto tinha ainda trinta anos, e não trinta e dois. Naquele tempo, isto parecia importante para ela. Deus tinha lhe concedido dois anos de “bônus”.

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Noel Piper
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